segunda-feira, 26 de março de 2012

Ética - Ficha de Leitura II

FICHA DE LEITURA

COSTA, Alexandre Araújo. Ética e Moralidade. http://www.arcos.adv.br/artigos/etica-e-moralidade/. Acessado em 22 de março de 2012.

VÁZQUEZ, Adolfo Sánchez. Ética. 31. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010.

RESUMO – A definição inicial, ponto de partida para um aprofundamento, é de que “a moral é um conjunto de normas, aceitas livre e conscientemente, que regulam o comportamento individual e social dos homens” (VÁZQUEZ, 2010, p.63). Fica clara uma distinção entre as normas, plano normativo, e o comportamento, plano fatual. Os diversos comportamentos que cumprem ou não determinada norma incluem estes atos na esfera da moral. Se o normativo indica como deveria ser, o comportamento é. Há um contato e uma troca constante entre estes dois planos. A norma vai exigir determinado comportamento, que será avaliado com base na primeira.

A moral existe tão somente dentro de uma sociedade e para esta serve. Por isto a moral deve ser vista e entendida como mecanismo social. O indivíduo não a escolhe, ele já nasce com ela estabelecida. Assim, a moral regula o comportamento individual, dirigindo-o para uma necessidade coletiva. As leis não são suficientes, é preciso que o indivíduo aceite de forma voluntária a ordem social estabelecida. Este é o grande objetivo da moral: regrar o indivíduo e suas ações intersociais para gerar vantagens ao grupo e a sobrevivência do coletivo. A moral condiciona o homem a agir, como se instinto fosse, de certa maneira. Quando se tornam hábitos ou costumes, as normas são mais duradouras e difíceis de serem modificadas, pelo peso da tradição.

Mesmo sabendo de todo o sistema normativo estabelecido e da tradição, não podemos esquecer da parcela que corresponde à responsabilidade e a capacidade de decisão pessoais em cada ato moral. Nenhum indivíduo age exclusivamente por força do sistema que lhe foi imposto, tampouco ouvindo apenas a sua própria consciência. Por isto que homens que vivem em uma mesma época e condição social reagem de maneiras semelhantes.

O ato moral sempre é julgado pelos demais indivíduos. Ele possuirá motivo, o impulso que fará o indivíduo agir. Também possuirá fim, idealização de um resultado. Outro elemento da estrutura do ato moral é a decisão de realizá-lo. Em seguida, deve-se chegar ao resultado efetivo. Para alcançar este resultado, o indivíduo deve valer-se de meios, que dependem de sua escolha. Todas estas etapas devem levar em consideração que o ato social gera consequências que afetarão os demais. O sujeito deve possuir motivo e ter consciência do fim desejado, de qual é o meio adequado e qual o resultado possível e assim, decidir concretizar o ato, com cujas consequências terá de arcar. Nem sempre os fins justificam os meios, mas isto pode depender de onde estará o foco de avaliação do ato moral. Ressalta-se que o ato moral só pode ser avaliado quando compreendido como um todo e levando-se em conta a singularidade de cada situação.

PALAVRAS-CHAVE:.moral, ato moral, normas, comportamento.

AVALIAÇÃO – O texto é muito bom, pois faz refletir sobre cada ato que executamos no dia-a-dia. A cada um deles, estamos agindo por reflexo da moral vigente, mas também temos uma parcela de responsabilidade única. Inúmeras vezes em um dia encontra-se motivo para decidir agir de determinada forma, idealizando uma finalidade, escolhendo um meio que se julga adequado (ou que já está estabelecido pelos demais?), chegando a um resultado que trará consequências. Isto acontece em um nível quase automático, sem que reflitamos sobre este processo corriqueiramente. No texto de Costa, ele afirma a moralidade pode ser vivida de maneira reflexiva ou irreflexiva. Nesta reflexão é que a ética encontra seu espaço, quando questionamos o porquê de sermos impulsionados a agir de determinada forma.

segunda-feira, 19 de março de 2012

Entrevista dialógica



MEDINA, Cremilda de Araújo. Entrevista: o diálogo possível. 3. ed São Paulo: Ática, 1995. 96 p. (Série Princípios)

Entrevista Dialógica

Em Entrevista: o diálogo possível, a autora Cremilda de Araújo Medina defende uma forma de entrevista voltada para o aspecto humanístico, como uma conversa e não como um questionário pré-moldado. Isto, defende ela, tornará a entrevista mais atrativa e autêntica, menos presa a uma pauta já estabelecida.

Por inevitavelmente ser uma interação social, a entrevista altera e influencia todos os que participam dela. A autora lembra que a entrevista faz parte do cotidiano de praticamente todos os indivíduos. Com o diálogo, o foco se volta para o entrevistado e não para a confirmação de uma pauta ou da opinião do entrevistador.

Morin, citado por Cremilda, ressalta que a palavra é fonte rica, porém duvidosa, pois podem existir fatores que falseiam as respostas e declarações (situação política, opção sexual e religiosa, entre outros). Morin prefere a entrevista não-diretiva pois esta “dá palavra ao homem interrogado, no lugar de fechá-lo em questões preestabelecidas”.

Cremilda divide as entrevistas em dois grupos: as que desejam espetacularizar o ser humano e as que desejam compreendê-lo. As de espetacularização subdividem-se em “perfil do pitoresco”, “perfil do inusitado”, “perfil da condenação” e “perfil da ironia intelectualizada”. As de compreensão subdividem-se em: “entrevista conceitual”, focada em conceitos antes de comportamentos; “entrevista/enquete”, com depoimentos aleatórios sobre determinado tema; “entrevista investigativa”, vai até onde a informação não está disponível facilmente; “confrontação-polemização”, em que o debate é o foco; e “perfil humanizado”, que tenta traçar um perfil humano e compreender verdadeiramente o entrevistado.

Morin divide em quatro: entrevista-rito, espécie de palavra de confirmação, parte que não pode faltar em uma cerimônia; entrevista-anedótica, conversão frívola, longe de qualquer comprometimento; entrevista-diálogo, traz à tona esclarecimentos sobre o entrevistado ou determinado problema; e neoconfissões, quando o entrevistado mergulha em si e revela sua alma.

Quanto ao desempenho humano, Cremilda ressalta que o perfil do entrevistador e do entrevistado são fundamentais para que haja o diálogo, mas é possível facilitá-lo com preparação e ciência da complexidade da situação psicossocial, permitindo o desbloqueio da comunicação e interação.

Para quem estuda Jornalismo ou para quem apenas deseja entender mais sobre esta interação social chamada de entrevista, o livro mostra-se fonte imprescindível de conhecimento. Uma boa entrevista não segue uma fórmula matemática e exige conhecimento do entrevistador para lidar com uma situação única a cada abordagem.

Conceitos

Diálogo e monólogo - “O diálogo é democrático; o monólogo é autoritário”.

Tipos de entrevista segundo Morin - Entrevista-rito, entrevista anedótica, entrevista-diálogo e neoconfissões.

Entrevistas de espetacularização - “perfil do pitoresco”, “perfil do inusitado”, “perfil da condenação” e “perfil da ironia intelectualizada”

Entrevistas de compreensão - “entrevista conceitual”, “entrevista/enquete”, “entrevista investigativa”, “confrontação-polemização” e “perfil humanizado”.

Ética - Ficha de Leitura I

FICHA DE LEITURA

FOSSATTI, Carolina Lanner. Cinema de animação: um diálogo ético no mundo encantado das histórias infantis. Porto Alegre: Sulina, 2011.

VÁZQUEZ, Adolfo Sánchez. Ética. 31. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010.

RESUMO – Cotidianamente tomam-se decisões que afetam diretamente outros indivíduos. Buscando agir corretamente do ponto de vista moral, os homens são capazes de estabelecer normas a serem seguidas. Estas normas servirão para agir, mas também para julgar as ações. São elas que servirão como justificativa para determinado ato. Hoje, reflete-se sobre este tipo de comportamento, teorizando. Além das situações práticas individuais, haverá a definição do que é o bom de forma mais generalizada, correspondendo à ética. Assim, todos se impõem regras e normas de ação. Teoria e prática podem se diferenciar, mas se tocam constantemente. A teoria busca soluções para a prática, que envia novas perguntas à teoria.

A ética é geral, os problemas morais são pontuais. A ética investiga o comportamento moral do ser humano, que varia de acordo com o espaço e o tempo. Ela tenta compreender racionalmente e cientificamente este comportamento, sua essência, origem, condições, fontes de avaliação, natureza e função. Como ciência, a ética deve sistematizar conhecimentos e, sempre que possível, torná-los comprováveis. Não podemos confundir ética e moral: a moral não é ciência, mas é estudada por ela.

A ética só pode se ocupar em seu estudo dos atos voluntários do ser humano e que influenciam outros indivíduos. Ela já não é mais parte da filosofia, mas a ela ainda recorre para subsidiar seus estudos. Na ética científica, não há espaço para especulações. Ela vai mergulhar na história do homem para basear suas afirmações. E para isto recorre não só à filosofia, mas também à psicologia, pois esta última estuda as condições internas que influenciam os atos humanos. Recorre também às ciências sociais, que vão estudar o indivíduo como ser inserido em uma estrutura social.

Mesmo sendo condicionado psíquica e socialmente, o homem tem margem para agir e se comportar conforme sua própria vontade, e pensando nisto não pode-se minimizar a ética como parte destas outras ciências, ou explicar o comportamento moral exclusivamente com elas. Toda ciência que estuda o comportamento e as relações humanas pode contribuir com a ética, tal como o direito. Ele trata de normas impostas coercitivamente, diferentemente das impostas na esfera moral. A economia política também contribui, de forma que pode definir padrões de sociedade que vão influenciar a moral.

O mais importante é entender que a ética é o estudo de um campo específico do comportamento humano, o comportamento moral.

PALAVRAS-CHAVE: ética, normas, comportamento moral, ciência.

AVALIAÇÃO – Para quem apenas acha que sabe o que é ética, valendo-se da ética especulativa, o texto de Vázquez é esclarecedor, definindo esta como ciência verdadeira e que se relaciona com demais áreas que estudam comportamento e relações sociais. Também mostra como a moral é relativa e pertencente a determinado tempo ou espaço. Fossatti, em seu texto, traz um avanço histórico do estudo da ética, e de sua conceituação. Ela também diferencia a moral da ética, mas primeiro cita as categorias éticas morais de Aristóteles. O texto é rico em referências e conteúdo histórico. Os dois autores convergem ao tratar da essência de generalidade da ética e da pontualidade da moral. Ambos concordam também que, mesmo se diferenciando, moral e ética influenciam-se mutuamente, e que a ética é influenciada por outras ciências, assim como a moral é influenciada pelo ambiente em que está instalada. Os textos são ótimos para o entendimento do que é a ética e começo de um estudo mas aprofundado.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Múltiplos caminhos


Engraçado como a gente passa por uma pessoa na rua e não pode fazer idéia de tudo o que ela passou até cruzar com você, naquele exato momento e ponto.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

O desafio de classificar e definir o objeto artístico



Resenha sobre o livro “O que é arte”, de Jorge Coli


O desafio de classificar e definir o objeto artístico


Não há facilidade em definir o que é artístico ou não. No livro “O que é arte”, de Jorge Coli, o autor traz uma pretensa solução para este desafio. Apesar da pretensão, ele deixa claro que deve haver profundidade na discussão, a fim de evitar a superficialidade e a idéia de que tudo está resolvido. Até porque muitos já tentaram desvendar este enigma anteriormente.

A natureza da arte possui diversas concepções, o que justifica a dificuldade em defini-la. Porém, segundo Coli, mesmo sem conseguir dizer o que é arte, quase todos os indivíduos são capazes de citar obras consideradas artísticas. O sentimento admirativo que nos toma ao nos depararmos com estas manifestações é um indicativo de que estamos diante de arte.

Porém, nem sempre é tão simples. O mictório de Marcel Duchamp, colocado dentro de um museu, é arte? Os quadrinhos que são lidos por uma criança são arte? Um cartaz publicitário? Achados arqueológicos? Como podemos ver, os limites entre o que é arte e o que não é nem sempre estão bem definidos.

Para facilitar, nossa cultura tratou de acentuar estes limites, criando instrumentos para separar o que é o artístico do que não é. São eles o discurso sobre o objeto artístico, os locais de manifestação, as atitudes de admiração, entre outros, que vão conceder o estatuto de arte a determinado objeto. O discurso pode ser proferido por um crítico, por um perito ou por um historiador de arte. Os locais de manifestação podem ser museus, cinemas “de arte”, salas de concerto. As atitudes de admiração podem ser representadas até mesmo pelo tombamento de um prédio como patrimônio nacional.

Segundo Coli, além de separar o artístico do não artístico, estes instrumentos de afirmação da arte também tratam de hierarquizá-la. São eles que dizem que Homero é “maior” do que Casimiro de Abreu, ou que Leonardo da Vinci é “superior” a Tarsila do Amaral. Esta classificação segue critérios próprios, explícitos ou não, definidos pela crítica. Segundo Coli, estes critérios são “mais diversos e menos precisos em seus julgamentos, critérios que não são apenas o do saber fazer.”

Um carpinteiro, por exemplo, utiliza seu conhecimento técnico para julgar se determinado móvel foi bem feito, a partir de saberes concretos, como qualidade da madeira, acabamento, estabilidade. O crítico de arte não pode ter esta objetividade. O artista pode não dominar a técnica, mas nem por isto a sua obra será necessariamente ruim. O discurso sobre o objeto artístico é complexo, mais arbitrário e menos técnico. Isto faz com que alguns achem determinado artista “vazio”, enquanto outros o invoquem como gênio.

O discurso sobre cada obra e o possível consenso sobre ela não são estáveis, e evoluem com o tempo. Quem é considerado um grande artista hoje pode ser considerado apenas “mais um” no futuro. Artistas reverenciados no passado hoje estão quase esquecidos. E, ainda, artistas não reconhecidos no passado hoje são venerados. Isto mostra que, nas palavras de Coli, “a autoridade institucional do discurso competente é forte, mas inconstante e contraditória”.

O discurso da crítica sempre traz as suas justificações para determinado veredicto. Segundo Coli, comumente passa-se a idéia de que o crítico adoraria possuir critérios científicos, mais sólidos e objetivos para embasar seu parecer. Isto o defenderia mais apropriadamente de discursos divergentes do seu. Criam-se então tentativas de classificar as artes, principalmente com a definição de estilos.

Quando conhecemos suficientemente o estilo de um artista, podemos reconhecê-lo em uma obra que desconhecemos ser de sua autoria. Também podemos reconhecer dentro de determinada época semelhanças estilísticas entre obras de diferentes artistas. A idéia, como diz Coli, é sedutora, Existem pontos fortes e limitações no emprego dessa noção.

Muitos artistas sequer sabiam que seriam enquadrados como “barrocos”, “góticos”. Mais do que a simples definição estilística, devemos levar em conta as intenções dos autores. Elas correspondem ao modo como o artista vê seu entorno, a sociedade e a cultura em que está inserido. Algumas práticas e intenções na hora de pintar vão aproximar obras específicas sob um mesmo pano de fundo estilístico.

Coli ressalta que essas classificações não são exatas e não possuem rigor científico, devendo ser usadas cautelosamente, já que reúnem obras ou artistas por razões diferentes. Um grande risco é tentar universalizar os estilos, rotulando todos os artistas. Isto é necessário? Se primeiro olharmos o estilo para então tentarmos encaixar determinado artista dentro dele, não estaremos menosprezando sua obra? Cada obra pode ser definida de forma muito mais rica do que apenas como uma “obra realista” ou “obra surrealista”, por exemplo. Como diz Coli, “as obras, em sua fecundidade concreta, são sempre mais do que nos dizem as pretensas definições”. As classificações não podem ser mais importantes que as obras.

Heinrich Wölfflin, na virada do século XIX para o século XX, é pioneiro em propor uma análise mais formal e precisa, distinguindo Renascença e Barroco, sem levar em conta os temas das obras. Ele analisa a planos, profundidade, linhas, luz, unicidade e pluralidade, entre outros fatores. Por ser historiador de arte, Wölfflin buscava o rigor científico de forma mais acentuada que os críticos.

Eugenio d’Ors vai mais longe e universaliza o Barroco, chamando-o de “gênero”. Assim defende que ele pode estar presente em diferentes tempos, com traços comuns, mas também com especificidades que definem espécies dentro do próprio gênero. Assim, acaba por colocar diversos artistas “dentro do mesmo saco”, sacrificando o rigor de Wölfflin. Já Focillon defende que uma etapa é evolução da anterior, e propõe que todos os períodos artísticos passam por uma destas etapas: primitiva, clássica e barroca.

Em contrariedade e ignorando o formalismo da classificação por linhas, cores, volumes e “estilos”, Panofsky e os iconologistas se concentram na semântica das obras, seus sentidos, signos e significados. A significação da arte desvalorizava-se com o excessivo rigor científico.

Voltando ao que entendemos por ser arte, Coli lembra que o que é arte para determinada cultura ou indivíduo pode não ser arte para outros (inclusive para quem a produziu). Também ressalta que Duchamp, com seu mictório, tenta nos mostrar que aquilo que consideramos arte só tem esta denominação porque ela foi referendada pelos instrumentos de nossa cultura, tais como museus, historiadores, críticos. O mictório poderia ser considerado apenas uma crítica, mas por estar dentro de um museu, virou mesmo obra de arte, o que comprova a força do instrumento cultural. Como diz Coli, “qualquer objeto aceito como arte, torna-se artístico. (...) O cartaz publicitário já não é instrumento de venda, é arte; a imagem do santo perdeu a sua função religiosa, é arte.” Então, os objetos modificam-se irremediavelmente e passamos a entendê-los de forma diferente.

Existiram e ainda existem manifestações artísticas efêmeras, como decorações desfeitas ou, mais claramente, improvisações de músicos. Nunca poderemos avaliar se um intérprete musical do século XVII realmente era talentoso. No entanto, a maior parte da obra artística é material. Isto não significa que é eterna. Ela precisa de esforços para ser conservada e estes próprios esforços podem modificá-la (tais como vernizes colocados em pinturas). Técnicas de restauração podem transformar catastroficamente as obras. Por isto que alguns quadros de um mesmo pintor podem possuir aspectos distintos entre si. Mesmo na música, os instrumentos não são mais exatamente os mesmos daqueles do século XV, por exemplo. Do teatro antigo, temos os textos, mas nossa interpretação pode ser totalmente diversa. Portanto, a arte não é imutável.

Coli também chama a atenção para as falsificações. Podemos, iludidos, sentir admiração pelo falsificado e pelo falsário, e tampouco pode-se descartar a possibilidade de haver obras falsas enriquecendo museus. Qualquer quadro que possa ser atribuído a um gênio faz a coleção ganhar prestígio.

Quanto à superficialidade da arte, Coli discorre no capítulo seguinte. A arte, quando aplicada a objetos úteis, seria o supérfluo? A arte é necessária? Segundo o autor, a arte sobrevive pelo prestígio de ser arte. Antes, o crucifixo era objeto de culto, o filme era espetáculo a ser consumido. Hoje são arte. O mesmo pode-se dizer da ópera. Substituída, em tese, pelo cinema, por ser cara e hoje não-lucrativa, ela sobrevive como ato “cultural”. Tornou-se frágil e dependente.

Não se pode dizer o mesmo da pintura, mesmo sabendo que no passado o mercado desta arte não era como o é hoje. Em tempos distantes, já havia organização em torno da produção e comercialização dos quadros, com uma idéia de arte voltada ao mercado. Os marchands aprimoraram ainda mais este sistema, facilitando o trânsito das pinturas internacionalmente e investindo em publicidade. Além de objetos de admiração, as obras passaram também a ser vistas como investimento seguro e rentável. Até hoje, um pintor desconhecido pode tornar-se celebre no futuro. Ou um quadro de autoria desconhecida pode ser reconhecido como obra de um consagrado artista (de forma verdadeira ou manipulada).

Os marchands utilizam-se de todos os meios possíveis para valorizar suas obras. Quadros de artistas pouco conhecidos expostos ao lado de grandes nomes ganham visibilidade e valor de mercado. A pintura se fundiu ao circuito econômico, e por isto continua forte.

O cinema de certa forma substituiu o teatro e a ópera por ser mais rentável. Mesmo com custo de produção elevado, ele consegue atender a um público muito maior, o que o torna lucrativo.

Enquanto isto, a arquitetura necessita de proteção oficial, pois nenhum arquiteto famoso é capaz de resistir a um contexto urbano que marginalize sua edificação ou que sugira que uma nova edificação, em seu lugar, geraria maior valor econômico. Com todas estas observações, Coli conclui que arte se mantém ou por seu valor econômico e social ou por um sistema que a proteja.

Ao mesmo tempo, a arte massageia o ego da elite, que se sente a única capaz de entender o que é arte (e pagar por ela). Muitas vezes o pretenso refinamento cultural não passa de uma forma de querer demonstrar “superioridade”. Nas palavras de Coli, “interessar-se pela arte significa ser mais ‘culto’, ter espírito ‘mais elevado’, ser diferente, melhor que o comum dos mortais”.

Coli deixa explícita sua opinião de que a arte é “instrumento de prazer cultural de riqueza inesgotável”, nem por isto dispensável – pelo contrário. Assim como precisamos encadear nossas idéias de forma racional para exprimirmos o que sentimos em contato com a obra, ela também nos desperta o irracional, o apaixonante, o sedutor. Mesmo que o autor tente conceber uma obra totalmente racional ou matemática, quando pronta ela adquire um valor irracional incontrolável. Não é por esta característica, de não seguir sempre a razão, que ela deixa de significar aprendizado. Segundo Coli, “entre a complexidade do mundo e a complexidade da arte existe uma grande afinidade”. Há a possibilidade de mergulhar em outro mundo e trazer dele algo proveitoso para o mundo “real”.

Na última parte do livro, Coli ressalta que a arte não pode ser entendida sem que haja um esforço. Se não estivermos preparados, não vamos entendê-la, muito menos senti-la. “A percepção artística não se dá espontaneamente”, diz o autor. E nem sempre a complexidade de uma obra a torna acessível em um primeiro momento. Se a bagagem cultural do observador não estiver carregada com a complexidade cultural do objeto, a simples observação fica comprometida. A idéia de “sensibilidade inata” é inadequada no sentido de não permitir um aprofundamento do contato com a arte.

Da mesma forma, o discurso do crítico sobre uma obra não esgota o significado dela. É apenas fruto do entendimento da cultura do autor do discurso sobre a própria representação cultural do objeto. Nada mais proveitoso do que interessar-se pela obra e tentar detalhá-la, diz Coli. Somos ensinados a apreender o significado de cada imagem de uma vez só, tais como sinais de trânsito, anúncios publicitários, etc. Por isto temos dificuldade em fazer uma análise mais demorada e detalhada.

Nas palavras de Coli, “o essencial é nos mantermos, sempre, próximos à obra. (...) É como se estivéssemos diante de um enigma a ser decifrado”. O enigma pode nos interessar ou não. Com o interesse pela obra e o contato apurado com a mesma, podemos questionar os discursos e evitar a terceirização de nossa relação com ela. Daí a importância do acesso às artes, defendido por Coli. Segundo ele, nosso sistema de ensino não privilegia a arte ou nos livra da miséria cultural. Assim, o esforço para acessar a arte se faz muito maior.

Mesmo os meios de comunicação que às vezes dão espaço às obras não podem passar a experiência por inteiro ao receptor. “As cores nunca são as mesmas, a matéria, o relevo, o espaço estão ausentes. (...) Nem a peça de teatro ou o filme transmitidos pela televisão substituem a representação no palco ou a projeção no cinema. (...) Técnicas de reprodução não são suficientes”. Segundo o autor, o contato direto com a obra é indispensável e deve ser exigido.

Por fim, Coli ressalta que o livro discute apenas o objeto artístico, e não a “Arte com A maiúsculo”, em sentido abstrato, muito menos o conceito do que é belo. O livro também não pretende discutir o indivíduo que faz este objeto artístico (seria preciso outro volume). Coli foca na “relação espectador-obra” e, assim, escreve um livro capaz de despertar uma renovada visão desta relação.

Entre Kliemann e Garrincha


Resenha sobre os livros

“Caso Kliemann: a história de uma tragédia”, de Celito de Grandi e

“Estrela solitária: um brasileiro chamado Garrincha”, de Ruy Castro


Entre Kliemann e Garrincha

Ler um livro-reportagem pode ser entediante ou apaixonante – tudo depende do livro. Além do assunto ou do personagem, importa a maneira como ele é contado. Isto não foi um problema para os dois livros aqui abordados. Nenhuma das duas leituras ocasionou a irresistível vontade de lacrar as páginas e arremessar o volume para o mais longe possível, característica dos livros de prolixidade vazia.

A primeira leitura foi do livro “Caso Kliemann: a história de uma tragédia”, de Celito de Grandi. O livro, escrito em 2010, possui 256 páginas, e conta a história da misteriosa morte da senhora Margit Kliemann em 20 de junho de 1962, sucedida do assassinato do ascendente deputado estadual, e seu marido, Euclydes Nicolau Kliemann em 31 de agosto de 1963. Os acontecimentos retratados no livro não começam com o falecimento de um e nem terminam com o óbito do outro, e aí está um dos trunfos de Celito. Ele consegue retratar a tensão política da época, que extravasa os limites de Santa Cruz do Sul e Porto Alegre, estando presente no país, com a iminência de um golpe de estado. As paixões políticas exaltadas, o comportamento questionável da sociedade gaúcha e todo o ambiente que cerca os acontecimentos fazem parte e melhoram o suspense criado por Celito, que retrata também o drama de três meninas órfãs – suas principais fontes. “Esta história me acompanha há quase meio século. E a redação do texto deste livro foi um processo quase angustiante, nos últimos quatro anos”, diz Celito, no início da obra.

A segunda leitura foi do livro “Estrela solitária: um brasileiro chamado Garrincha”, escrito por Ruy Castro. Se no livro de Celito a narrativa se concentra mais nos anos imediatamente anteriores e posteriores às trágicas mortes, Ruy Castro traz a vida de Garrincha de forma inteira, usando as 520 páginas (ufa!) para escrever desde os ancestrais do jogador e sua infância em Pau Grande até a sua decadência e final também trágico, vítima do alcoolismo. O livro escrito em 1995 traz à tona um Garrincha desconhecido do grande público, acostumado apenas com suas jogadas sensacionais, com os escândalos que se sucederam em sua vida e com a sua fama de ser pouquíssimo inteligente. Mais do que isto, Ruy revela um Garrincha que foi vítima de sua própria inocência, além da incapacidade de ajudá-lo daqueles que o cercavam. O autor finaliza a obra em tom pessoal: “Esses últimos dois anos e meio em que convivi com a memória de Garrincha foram a retomada de uma admiração que começou num remoto domingo de novembro de 1958 quando o vi pela primeira vez no Maracanã (...). Foi quando descobri, olhando para dentro de mim mesmo, que até os mais ardentes torcedores do Flamengo também eram Garrincha de coração”.

Como podemos ver nos trechos destacados acima, os autores possuem certo grau de envolvimento pessoal com os fatos que narram. Se Ruy Castro admirou os dribles de Garrincha enquanto jornalista e torcedor, Celito de Grandi esteve ainda mais próximo da história que traz no livro: “A partir de 20 de junho de 1962, dia do asassinato de Margit Kliemann, observei de perto, na redação do Diário de Notícias, o trabalho frenético e delirante dos repórteres do setor de polícia”, diz Celito, que também participou da cobertura do julgamento do assassino do deputado Kliemann: “Durante esses anos todos, os debates daquele júri continuaram a ressoar em minha memória, tanto quanto a gravação do tiro, reproduzida à exaustão para sensibilizar os jurados e o público”.

O desejo de escrever sobre seus personagens surgiram de formas diferentes em cada escritor. Para Celito, o silêncio e o tabu em torno do caso tornaram-se iscas. Ao conseguir intimidade com as filhas do casal Kliemann e ouvir delas seu drama e versão dos fatos, Celito se sentiu na responsabilidade de reconstituir os fatos e esclarecer o episódio. “Elas haviam narrado seus dramas pessoais sem esconder detalhes, alguns da maior intimidade. Pareceu-me que havia chegado a hora (...) de colocar um ponto final no luto de mais de 40 anos”.

Para Ruy Castro, a idéia de escrever sobre Garrincha surgiu após a publicação de outro livro, O anjo pornográfico. Escreveu durante todo o ano de 1993 sem patrocínio. Até que em 1994 o presidente da Bolsa de Valores do Rio de Janeiro, Carlos Alberto Reis, apaixonado por futebol, interessou-se pelo projeto. Isto levou ao patrocínio do livro pela Bolsa, sem o qual ele nunca poderia ter sido realizado, segundo o próprio autor.

Para a apuração dos fatos, ambos os escritores usaram entrevistas, dados oficiais e as publicações da imprensa na época. No Caso Kliemann, Celito partiu de entrevistas minuciosas com as filhas de Euclydes e Margit. A partir destes depoimentos, passou a colher informações em memoriais e museus, entrevistar personagens citados, testemunhas e outros pesquisadores. Utilizou-se também do diverso material produzido pela imprensa da época. O grande diferencial de Celito é a sua participação na história. Como anteriormente dito, ele acompanhou diretamente da redação a cobertura dos crimes. Mais do que isto, ele próprio envolveu-se com a cobertura, entrevistando o delegado responsável pelo caso Margit no mesmo ano do crime. Anos depois, também cobriu o julgamento do assassino do deputado Kliemann. As lembranças e a coleta de materiais permitem que ele, ao longo do livro, critique o posicionamento da imprensa da época, excessivamente especulativa e sensacionalista.

Ruy Castro revela que, para escrever seu livro, consultou “170 entrevistados, num total de mais de quinhentas entrevistas.” Da mesma forma que o outro autor, ele também se utiliza dos arquivos da imprensa da época para buscar informações e enriquecer seu trabalho. Por outro lado, se Ruy não tem um envolvimento com a história narrada tão grande quanto Celito, ele possui a vantagem de encontrar mais fontes de consulta que já haviam escrito anteriormente sobre Garrincha, como pode ser visto na bibliografia de seu livro.

Quanto à narrativa, ambos os autores utilizam a terceira pessoa. Escrevem em primeira pessoa apenas nos capítulos de agradecimento e justificativa sobre os livros, buscando uma conversa franca com o leitor. Outra semelhança entre os autores é a linearidade e ordem cronológica que procuram manter no livro. As páginas avançam, em geral, conjuntamente com o calendário. Isto não significa que os autores não voltam em alguns momentos para esclarecer fatos ou aproveitar “ganchos”. Porém, é possível entender o avanço no tempo e situar-se facilmente.

Se Celito de Grandi é detalhista em seu livro, Ruy Castro pode ser considerado ainda mais. A minúcia é impressionante em ambos os livros, o que faz o leitor se sentir como testemunha da cena.

Trecho detalhista do livro de Celito: “(...)Acorda inquieto na noite quente de dezembro, o pijama molhado de suor, (..) Corpo excessivamente enrugado aos 64 anos. Os passos são lentos. Na cozinha, apanha um copo d’água e volta aos papelotes com palavras escritas por ele em letra de forma: violência / paixão / álibi / dama de vermelho / sexo / taxista / cartomante / política / drogas / traição.”

Trecho detalhista do livro de Ruy: “(...)Começou a marcá-lo com violência, dando-lhe discretos socos na barriga com o braço retesado. Ao fim do treino, Garrincha levantou a camisa e reclamou com ele: ‘O que deu em você? Olha a minha barriga. Está toda vermelha’”.

Antes de folhear as páginas das duas obras, o potencial leitor sentirá mais atração por um livro ou por outro, dependendo do seu perfil, e assim fará a sua escolha. Atração pelo Caso Kliemann para aqueles que gostam de suspense. Atração pela Estrela solitária para quem gosta de futebol. Ambos surpreendem pela fluidez e para narrativa empolgante, que fazem com que a próxima página seja aguardada ansiosamente. A melhor escolha é mesmo ler os dois.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

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