Resenha sobre o livro “O que é arte”, de Jorge Coli
O desafio de classificar e definir o objeto artístico
Não há facilidade em definir o que é artístico ou não. No livro “O que é arte”, de Jorge Coli, o autor traz uma pretensa solução para este desafio. Apesar da pretensão, ele deixa claro que deve haver profundidade na discussão, a fim de evitar a superficialidade e a idéia de que tudo está resolvido. Até porque muitos já tentaram desvendar este enigma anteriormente.
A natureza da arte possui diversas concepções, o que justifica a dificuldade em defini-la. Porém, segundo Coli, mesmo sem conseguir dizer o que é arte, quase todos os indivíduos são capazes de citar obras consideradas artísticas. O sentimento admirativo que nos toma ao nos depararmos com estas manifestações é um indicativo de que estamos diante de arte.
Porém, nem sempre é tão simples. O mictório de Marcel Duchamp, colocado dentro de um museu, é arte? Os quadrinhos que são lidos por uma criança são arte? Um cartaz publicitário? Achados arqueológicos? Como podemos ver, os limites entre o que é arte e o que não é nem sempre estão bem definidos.
Para facilitar, nossa cultura tratou de acentuar estes limites, criando instrumentos para separar o que é o artístico do que não é. São eles o discurso sobre o objeto artístico, os locais de manifestação, as atitudes de admiração, entre outros, que vão conceder o estatuto de arte a determinado objeto. O discurso pode ser proferido por um crítico, por um perito ou por um historiador de arte. Os locais de manifestação podem ser museus, cinemas “de arte”, salas de concerto. As atitudes de admiração podem ser representadas até mesmo pelo tombamento de um prédio como patrimônio nacional.
Segundo Coli, além de separar o artístico do não artístico, estes instrumentos de afirmação da arte também tratam de hierarquizá-la. São eles que dizem que Homero é “maior” do que Casimiro de Abreu, ou que Leonardo da Vinci é “superior” a Tarsila do Amaral. Esta classificação segue critérios próprios, explícitos ou não, definidos pela crítica. Segundo Coli, estes critérios são “mais diversos e menos precisos em seus julgamentos, critérios que não são apenas o do saber fazer.”
Um carpinteiro, por exemplo, utiliza seu conhecimento técnico para julgar se determinado móvel foi bem feito, a partir de saberes concretos, como qualidade da madeira, acabamento, estabilidade. O crítico de arte não pode ter esta objetividade. O artista pode não dominar a técnica, mas nem por isto a sua obra será necessariamente ruim. O discurso sobre o objeto artístico é complexo, mais arbitrário e menos técnico. Isto faz com que alguns achem determinado artista “vazio”, enquanto outros o invoquem como gênio.
O discurso sobre cada obra e o possível consenso sobre ela não são estáveis, e evoluem com o tempo. Quem é considerado um grande artista hoje pode ser considerado apenas “mais um” no futuro. Artistas reverenciados no passado hoje estão quase esquecidos. E, ainda, artistas não reconhecidos no passado hoje são venerados. Isto mostra que, nas palavras de Coli, “a autoridade institucional do discurso competente é forte, mas inconstante e contraditória”.
O discurso da crítica sempre traz as suas justificações para determinado veredicto. Segundo Coli, comumente passa-se a idéia de que o crítico adoraria possuir critérios científicos, mais sólidos e objetivos para embasar seu parecer. Isto o defenderia mais apropriadamente de discursos divergentes do seu. Criam-se então tentativas de classificar as artes, principalmente com a definição de estilos.
Quando conhecemos suficientemente o estilo de um artista, podemos reconhecê-lo em uma obra que desconhecemos ser de sua autoria. Também podemos reconhecer dentro de determinada época semelhanças estilísticas entre obras de diferentes artistas. A idéia, como diz Coli, é sedutora, Existem pontos fortes e limitações no emprego dessa noção.
Muitos artistas sequer sabiam que seriam enquadrados como “barrocos”, “góticos”. Mais do que a simples definição estilística, devemos levar em conta as intenções dos autores. Elas correspondem ao modo como o artista vê seu entorno, a sociedade e a cultura em que está inserido. Algumas práticas e intenções na hora de pintar vão aproximar obras específicas sob um mesmo pano de fundo estilístico.
Coli ressalta que essas classificações não são exatas e não possuem rigor científico, devendo ser usadas cautelosamente, já que reúnem obras ou artistas por razões diferentes. Um grande risco é tentar universalizar os estilos, rotulando todos os artistas. Isto é necessário? Se primeiro olharmos o estilo para então tentarmos encaixar determinado artista dentro dele, não estaremos menosprezando sua obra? Cada obra pode ser definida de forma muito mais rica do que apenas como uma “obra realista” ou “obra surrealista”, por exemplo. Como diz Coli, “as obras, em sua fecundidade concreta, são sempre mais do que nos dizem as pretensas definições”. As classificações não podem ser mais importantes que as obras.
Heinrich Wölfflin, na virada do século XIX para o século XX, é pioneiro em propor uma análise mais formal e precisa, distinguindo Renascença e Barroco, sem levar em conta os temas das obras. Ele analisa a planos, profundidade, linhas, luz, unicidade e pluralidade, entre outros fatores. Por ser historiador de arte, Wölfflin buscava o rigor científico de forma mais acentuada que os críticos.
Eugenio d’Ors vai mais longe e universaliza o Barroco, chamando-o de “gênero”. Assim defende que ele pode estar presente em diferentes tempos, com traços comuns, mas também com especificidades que definem espécies dentro do próprio gênero. Assim, acaba por colocar diversos artistas “dentro do mesmo saco”, sacrificando o rigor de Wölfflin. Já Focillon defende que uma etapa é evolução da anterior, e propõe que todos os períodos artísticos passam por uma destas etapas: primitiva, clássica e barroca.
Em contrariedade e ignorando o formalismo da classificação por linhas, cores, volumes e “estilos”, Panofsky e os iconologistas se concentram na semântica das obras, seus sentidos, signos e significados. A significação da arte desvalorizava-se com o excessivo rigor científico.
Voltando ao que entendemos por ser arte, Coli lembra que o que é arte para determinada cultura ou indivíduo pode não ser arte para outros (inclusive para quem a produziu). Também ressalta que Duchamp, com seu mictório, tenta nos mostrar que aquilo que consideramos arte só tem esta denominação porque ela foi referendada pelos instrumentos de nossa cultura, tais como museus, historiadores, críticos. O mictório poderia ser considerado apenas uma crítica, mas por estar dentro de um museu, virou mesmo obra de arte, o que comprova a força do instrumento cultural. Como diz Coli, “qualquer objeto aceito como arte, torna-se artístico. (...) O cartaz publicitário já não é instrumento de venda, é arte; a imagem do santo perdeu a sua função religiosa, é arte.” Então, os objetos modificam-se irremediavelmente e passamos a entendê-los de forma diferente.
Existiram e ainda existem manifestações artísticas efêmeras, como decorações desfeitas ou, mais claramente, improvisações de músicos. Nunca poderemos avaliar se um intérprete musical do século XVII realmente era talentoso. No entanto, a maior parte da obra artística é material. Isto não significa que é eterna. Ela precisa de esforços para ser conservada e estes próprios esforços podem modificá-la (tais como vernizes colocados em pinturas). Técnicas de restauração podem transformar catastroficamente as obras. Por isto que alguns quadros de um mesmo pintor podem possuir aspectos distintos entre si. Mesmo na música, os instrumentos não são mais exatamente os mesmos daqueles do século XV, por exemplo. Do teatro antigo, temos os textos, mas nossa interpretação pode ser totalmente diversa. Portanto, a arte não é imutável.
Coli também chama a atenção para as falsificações. Podemos, iludidos, sentir admiração pelo falsificado e pelo falsário, e tampouco pode-se descartar a possibilidade de haver obras falsas enriquecendo museus. Qualquer quadro que possa ser atribuído a um gênio faz a coleção ganhar prestígio.
Quanto à superficialidade da arte, Coli discorre no capítulo seguinte. A arte, quando aplicada a objetos úteis, seria o supérfluo? A arte é necessária? Segundo o autor, a arte sobrevive pelo prestígio de ser arte. Antes, o crucifixo era objeto de culto, o filme era espetáculo a ser consumido. Hoje são arte. O mesmo pode-se dizer da ópera. Substituída, em tese, pelo cinema, por ser cara e hoje não-lucrativa, ela sobrevive como ato “cultural”. Tornou-se frágil e dependente.
Não se pode dizer o mesmo da pintura, mesmo sabendo que no passado o mercado desta arte não era como o é hoje. Em tempos distantes, já havia organização em torno da produção e comercialização dos quadros, com uma idéia de arte voltada ao mercado. Os marchands aprimoraram ainda mais este sistema, facilitando o trânsito das pinturas internacionalmente e investindo em publicidade. Além de objetos de admiração, as obras passaram também a ser vistas como investimento seguro e rentável. Até hoje, um pintor desconhecido pode tornar-se celebre no futuro. Ou um quadro de autoria desconhecida pode ser reconhecido como obra de um consagrado artista (de forma verdadeira ou manipulada).
Os marchands utilizam-se de todos os meios possíveis para valorizar suas obras. Quadros de artistas pouco conhecidos expostos ao lado de grandes nomes ganham visibilidade e valor de mercado. A pintura se fundiu ao circuito econômico, e por isto continua forte.
O cinema de certa forma substituiu o teatro e a ópera por ser mais rentável. Mesmo com custo de produção elevado, ele consegue atender a um público muito maior, o que o torna lucrativo.
Enquanto isto, a arquitetura necessita de proteção oficial, pois nenhum arquiteto famoso é capaz de resistir a um contexto urbano que marginalize sua edificação ou que sugira que uma nova edificação, em seu lugar, geraria maior valor econômico. Com todas estas observações, Coli conclui que arte se mantém ou por seu valor econômico e social ou por um sistema que a proteja.
Ao mesmo tempo, a arte massageia o ego da elite, que se sente a única capaz de entender o que é arte (e pagar por ela). Muitas vezes o pretenso refinamento cultural não passa de uma forma de querer demonstrar “superioridade”. Nas palavras de Coli, “interessar-se pela arte significa ser mais ‘culto’, ter espírito ‘mais elevado’, ser diferente, melhor que o comum dos mortais”.
Coli deixa explícita sua opinião de que a arte é “instrumento de prazer cultural de riqueza inesgotável”, nem por isto dispensável – pelo contrário. Assim como precisamos encadear nossas idéias de forma racional para exprimirmos o que sentimos em contato com a obra, ela também nos desperta o irracional, o apaixonante, o sedutor. Mesmo que o autor tente conceber uma obra totalmente racional ou matemática, quando pronta ela adquire um valor irracional incontrolável. Não é por esta característica, de não seguir sempre a razão, que ela deixa de significar aprendizado. Segundo Coli, “entre a complexidade do mundo e a complexidade da arte existe uma grande afinidade”. Há a possibilidade de mergulhar em outro mundo e trazer dele algo proveitoso para o mundo “real”.
Na última parte do livro, Coli ressalta que a arte não pode ser entendida sem que haja um esforço. Se não estivermos preparados, não vamos entendê-la, muito menos senti-la. “A percepção artística não se dá espontaneamente”, diz o autor. E nem sempre a complexidade de uma obra a torna acessível em um primeiro momento. Se a bagagem cultural do observador não estiver carregada com a complexidade cultural do objeto, a simples observação fica comprometida. A idéia de “sensibilidade inata” é inadequada no sentido de não permitir um aprofundamento do contato com a arte.
Da mesma forma, o discurso do crítico sobre uma obra não esgota o significado dela. É apenas fruto do entendimento da cultura do autor do discurso sobre a própria representação cultural do objeto. Nada mais proveitoso do que interessar-se pela obra e tentar detalhá-la, diz Coli. Somos ensinados a apreender o significado de cada imagem de uma vez só, tais como sinais de trânsito, anúncios publicitários, etc. Por isto temos dificuldade em fazer uma análise mais demorada e detalhada.
Nas palavras de Coli, “o essencial é nos mantermos, sempre, próximos à obra. (...) É como se estivéssemos diante de um enigma a ser decifrado”. O enigma pode nos interessar ou não. Com o interesse pela obra e o contato apurado com a mesma, podemos questionar os discursos e evitar a terceirização de nossa relação com ela. Daí a importância do acesso às artes, defendido por Coli. Segundo ele, nosso sistema de ensino não privilegia a arte ou nos livra da miséria cultural. Assim, o esforço para acessar a arte se faz muito maior.
Mesmo os meios de comunicação que às vezes dão espaço às obras não podem passar a experiência por inteiro ao receptor. “As cores nunca são as mesmas, a matéria, o relevo, o espaço estão ausentes. (...) Nem a peça de teatro ou o filme transmitidos pela televisão substituem a representação no palco ou a projeção no cinema. (...) Técnicas de reprodução não são suficientes”. Segundo o autor, o contato direto com a obra é indispensável e deve ser exigido.
Por fim, Coli ressalta que o livro discute apenas o objeto artístico, e não a “Arte com A maiúsculo”, em sentido abstrato, muito menos o conceito do que é belo. O livro também não pretende discutir o indivíduo que faz este objeto artístico (seria preciso outro volume). Coli foca na “relação espectador-obra” e, assim, escreve um livro capaz de despertar uma renovada visão desta relação.